Cáceres, 3 de agosto de 2026 - 15:33

Neurodivergência não termina no diagnóstico

Neurodivergência-não-termina

 Pela primeira vez, o Censo Demográfico identificou 2,4 milhões de brasileiros diagnosticados com autismo, o que representa 1,2% da população. É um avanço real: nenhuma política pública se planeja sem saber quem precisa dela. Mas, antes mesmo de aparecer nas estatísticas, muitas famílias enfrentam uma longa espera. No interior de Mato Grosso, por exemplo, tenho ouvido relatos de pais que esperam meses pelo diagnóstico dos filhos e, muitas vezes, quase um ano por uma consulta com neuropediatra ou terapeuta.

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 Ou seja, a criança apresenta sinais, a escola alerta, a família busca ajuda, mas a avaliação especializada demora a chegar. Sem diagnóstico no tempo certo, ficam mais distantes as terapias e as adaptações. A intervenção precoce faz toda a diferença, mas ela não existe quando o acesso ao laudo é tardio. Mato Grosso conta com serviços especializados, mas uma unidade de referência não substitui equipes preparadas em cada município. É preciso ampliar a capacidade de avaliação na rede pública, qualificar profissionais da atenção básica e usar atendimento itinerante e telemedicina para alcançar as regiões mais distantes.

 Só que essa espera é apenas o primeiro capítulo de um desafio maior. Entre 2015 e 2024, a proporção de matrículas de Educação Especial atribuídas ao autismo saltou de 5,6% para 44,2%, segundo o Censo Escolar. Em uma década, a pressão das famílias fez a rede de ensino abrir as portas para essas crianças. Garantir o acesso foi um passo inicial indispensável, mas matrícula não pode ser confundida com inclusão real. De nada adianta estar na sala de aula sem equipe multiprofissional, professores preparados, mediadores e adaptações pedagógicas efetivas.

 

 O problema ganha contornos ainda mais graves quando essa criança cresce. Ao completar 18 anos, ela sai de um sistema que ao menos aprendeu a registrar sua presença e entra em um mercado que ainda não sabe o que fazer com ela. Entre autistas com 25 anos ou mais, 46,1% não têm instrução ou não concluíram o ensino fundamental – bem acima dos 35,2% da população geral. No mercado de trabalho, cerca de 85% dos autistas adultos no Brasil sequer estão inseridos.

 A realidade vai além do autismo: pessoas com TDAH, dislexia, discalculia e outras condições neurodivergentes seguem quase invisíveis nas estatísticas e nos orçamentos públicos. Quem não aparece nos dados também não aparece na formação de profissionais e na oferta de serviços.

 Uma lei federal de 2024 determinou a integração do cadastro nacional de pessoas autistas ao Sine, para facilitar o encaminhamento a vagas e contratos de aprendizagem. Passado mais de um ano da sanção, é hora de cobrar resultados práticos: quantas pessoas foram encaminhadas, quantas foram contratadas e quais empresas de fato se prepararam para recebê-las?

 A própria Câmara dos Deputados avançou nessa discussão ao aprovar, na Comissão de Trabalho, o Projeto de Lei 1756/2025, que cria regras para que as empresas adaptem instalações, treinamentos e rotinas de gestão. Afinal, a inclusão de verdade não termina na assinatura da carteira, mas na garantia de permanência e respeito no ambiente de trabalho.

 O diagnóstico não pode ser o ponto final de uma longa espera na infância, nem a inclusão pode ser uma promessa que expira aos 18 anos. Precisamos de uma rede pública integrada que acompanhe a pessoa neurodivergente por toda a vida: do diagnóstico célere à saúde, da escola ao mercado de trabalho. O Brasil começou a enfrentar o desafio do acesso na infância, embora ainda precise entregar a qualidade que as famílias merecem. Agora, precisa provar que não vai cruzar os braços quando esse jovem chegar à vida adulta.

*Irajá Lacerda é ex-secretário executivo do Ministério da Agricultura e Pecuária e ex-presidente da Comissão de Direito Agrário da OAB-MT

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