Cáceres, 17 de agosto de 2026 - 15:11

O Mapa do Voto em Cáceres

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 O que as diferenças entre bairros, comunidades rurais, zonas e seções eleitorais revelam sobre participação, prioridades públicas e comportamento político no município

Por Adriane do Nascimento

 O voto não se distribui de maneira uniforme sobre o território. Cada bairro, comunidade rural, zona e seção eleitoral registra uma combinação particular de comparecimento, abstenção, preferências políticas e vínculos com as candidaturas. Quando esses dados são organizados geograficamente, a eleição deixa de ser apenas uma soma de votos e passa a revelar um verdadeiro mapa social e político de Cáceres.

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 Nas eleições municipais de 2024, a base territorial Cáceres-MT analisada, reúne 62.858 eleitores aptos, distribuídos em 210 seções e 39 locais de votação, todos vinculados à Zona Eleitoral 6. Compareceram 46.540 eleitores. Outros 16.318 não foram às urnas, o equivalente a uma taxa municipal de abstenção de 25,96%. Entre os que compareceram, registraram-se 647 votos brancos e 1.162 nulos. Somadas as ausências aos votos brancos e nulos, o município apresentou 18.127 votos não convertidos em escolha válida, correspondentes a 28,84% do eleitorado apto. Mais do que apontar os eleitos e eleitas pelas urnas, a análise territorial ajuda a identificar diferenças de acesso, prioridades locais e expectativas da população.

 Esses números afastam duas leituras simplificadoras. A primeira é imaginar que o município se comporta eleitoralmente como uma unidade homogênea. A segunda é tratar todo eleitor ausente, branco ou nulo como voto automaticamente disponível. A abstenção pode decorrer de distância, mobilidade, saúde, trabalho, desatualização cadastral, desinteresse ou descrença. O voto branco ou nulo, por sua vez, é produzido por quem compareceu, mas não converteu sua presença em apoio válido. São fenômenos distintos e exigem respostas distintas.

1 – LOCAIS COM MAIOR NÚMERO DE ELEITORES AUSENTES

 Os dez locais que concentraram as maiores quantidades de ausentes foram:

a) Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT: 5.029 eleitores aptos, 1.306 ausentes e taxa de abstenção de 25,97%.
b) Escola Estadual Onze de Março: 3.916 eleitores aptos, 1.089 ausentes e taxa de 27,81%.
c) Centro Universitário Estácio do Pantanal – FAPAN: 3.813 eleitores aptos, 1.072 ausentes e taxa de 28,11%.
d) Escola Técnica de Educação Profissional e Tecnológica de Cáceres: 3.463 eleitores aptos, 914 ausentes e taxa de 26,39%.
e) Escola Estadual Senador Mário Motta: 3.689 eleitores aptos, 908 ausentes e taxa de 24,61%.
f) Escola Estadual Doutor José Rodrigues Fontes: 2.912 eleitores aptos, 750 ausentes e taxa de 25,76%.
g) Escola Estadual Ana Maria das Graças Souza Noronha: 2.766 eleitores aptos, 709 ausentes e taxa de 25,63%.
h) Escola Estadual Desembargador Gabriel Pinto de Arruda: 2.630 eleitores aptos, 658 ausentes e taxa de 25,02%.
i) Escola Estadual Frei Ambrósio: 2.402 eleitores aptos, 654 ausentes e taxa de 27,23%.
j) Escola Estadual Doutor Leopoldo Ambrósio Filho: 2.355 eleitores aptos, 602 ausentes e taxa de 25,56%.

 Esses dez locais concentraram 8.662 ausentes, correspondentes a 53,08% de toda a abstenção registrada no município. Isso significa que mais da metade dos eleitores que não compareceram às urnas estava vinculada a apenas dez dos 39 locais de votação.

 Neste contexto, no pleito eleitoral realizado no município de Cáceres-MT, os dez principais locais de votação registraram um total de 8.662 eleitores ausentes, dentre os 33.975 aptos a votar nessas seções. O índice de abstenção observado nesses locais evidencia um fenômeno recorrente na democracia brasileira, no qual uma parcela significativa do eleitorado deixa de exercer seu direito e dever cívico de participar do processo democrático. As taxas de abstenção reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas ao estímulo da participação popular nas urnas.

2 – OS NÚCLEOS DE ABSTENÇÃO CRÍTICA

 A abstenção eleitoral em Cáceres não está uniformemente distribuída. Mais da metade dos 16.318 eleitores ausentes está concentrada em apenas dez dos 39 locais de votação.

 A análise permite estabelecer quatro categorias de atenção:

a) FAPAN e Escola Estadual Onze de Março: combinam mais de mil ausentes com taxas significativamente superior à média municipal;
b) Escola Técnica de Educação Profissional e Tecnológica de Cáceres, Escola Estadual Frei Ambrósio, Escola Municipal Vitória Régia e Escola Municipal Vila Real: apresentam contingentes relevantes e taxas superiores à média;
c) Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT: concentra o maior número absoluto de ausentes do município;
d) Escola Municipal 16 de Março: apresenta a maior taxa proporcional de abstenção.

 Esses dados recomendam a substituição de estratégias genéricas por ações territorialmente dirigidas. Antes de qualquer intervenção, entretanto, é necessário investigar as causas específicas da ausência em cada local, considerando transporte, distância, acessibilidade, condições viárias, horário de trabalho, atualização cadastral, confiança institucional e mobilização comunitária.

 Os ausentes não constituem uma reserva automática de votos para determinada candidatura. O mapa apenas identifica onde a não participação se concentra e onde existe maior possibilidade de ampliar o comparecimento eleitoral. A conversão desse diagnóstico em resultado dependerá de presença territorial, escuta qualificada, comunicação adequada e construção efetiva de confiança.

3 – O RURAL NÃO FORMA UM BLOCO ÚNICO

 Os endereços da base e dados permitem identificar seções situadas explicitamente em distritos, assentamentos, localidades ou comunidades rurais. Esse recorte reúne 6.587 eleitores aptos e 1.700 ausências, taxa de 25,81%, praticamente igual à observada nas demais seções, de 25,98%.

 A semelhança das médias, contudo, não elimina as diferenças internas. A Escola Municipal Laranjeira, no Assentamento Laranjeira I, registrou 28,48%; a Escola Municipal Limoeiro, no Assentamento Limoeiro, 27,17%; e a Escola Municipal 16 de Março, no Distrito de Nova Cáceres, 29,76%. Em contrapartida, a Escola Municipal União, em Horizonte D’Oeste, apresentou 21,44%; a Escola Municipal São Francisco, 23,42%; e a Escola Municipal Buriti, em Vila Aparecida, 24,08%.

 O comportamento rural, portanto, é plural. Tratar o eleitorado rural como um bloco homogêneo seria, portanto, um equívoco analítico. O que os dados revelam é que a abstenção no campo obedece a lógicas territoriais, sociais e comunitárias próprias, moldadas por fatores que vão além da distância geográfica.

4 – DA ESTATÍSTICA À COMPREENSÃO TERRITORIAL

 O mapa do voto não deve ser utilizado apenas para decidir onde pedir votos. Ele também pode orientar onde o poder público precisa escutar melhor. Taxas persistentemente elevadas de abstenção podem sinalizar barreiras materiais ou institucionais; concentração de brancos e nulos pode sugerir dificuldade de identificação com as alternativas apresentadas; diferenças marcantes entre seções próximas podem indicar redes comunitárias distintas ou desigualdade de acesso à informação.

 Há, ainda, uma dimensão democrática. A ausência reiterada de determinados territórios reduz sua capacidade de converter necessidades coletivas em pressão política mensurável. Quando grupos participam menos, seus problemas correm o risco de aparecer menos na agenda, ainda que sejam socialmente urgentes. Combater barreiras ao comparecimento não favorece uma candidatura específica; fortalece a representatividade do município.

 Cáceres não possui um único mapa do voto. Possui uma sobreposição de mapas: o da escala eleitoral, o da intensidade da abstenção, o da não conversão do comparecimento e o da preferência política. A principal conclusão é que a participação está desigualmente distribuída e pode ser compreendida territorialmente. A média municipal informa o tamanho do problema. Os locais e as seções mostram onde ele se concentra. Os bairros, distritos, assentamentos e comunidades fornecem o contexto necessário para compreender por que ele ocorre.

 Sob essa perspectiva, os dados eleitorais deixam de ser apenas registros estatísticos e passam a constituir inteligência cívica e territorial, capaz de orientar políticas públicas, qualificar a representação e aproximar as instituições das realidades locais. Debater quais medidas podem ampliar a participação é o exercício mais honesto que uma sociedade pode fazer consigo mesma.

 Afinal, a eleição contabiliza votos; a análise territorial revela o que eles expressam e, igualmente, o que as ausências silenciam.

Adriane A. Barbosa do Nascimento é advogada, consultora econômica e Doutoranda em Direito Constitucional pelo IDP. Mestra em Economia, Políticas Públicas e Desenvolvimento, é registrada no CORECON-MT sob o nº 00001/ME e especialista em Direito Tributário, Societário e do Trabalho. É coautora de livros e artigos científicos e vencedora do XXIX Prêmio Brasil de Economia, em 2023, além de ter conquistado o terceiro lugar na edição de 2024. Mantém atuação profissional em Cáceres e Cuiabá (MT).

Fonte dos dados: Os indicadores apresentados neste artigo foram elaborados com base nos dados oficiais disponibilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral no conjunto “Resultados – 2024”, disponível no Portal de Dados Abertos do TSE.

BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Resultados – 2024. Portal de Dados Abertos do TSE. Brasília, DF: Tribunal Superior Eleitoral, 2024. Disponível em: https://dadosabertos.tse.jus.br/dataset/resultados-2024. Acesso em: 2 ago. 2026.

 Fonte: ReporterMT

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