Cáceres amanheceu mais silenciosa hoje. Não por falta de barulho, mas por ausência de uma presença que, por anos, fez parte da paisagem viva da cidade. Partiu Cristiano da Silva Duarte, 32 anos, o nosso conhecido Foguinho, figura que atravessava ruas, calçadas e memórias com a mesma intensidade com que pedalava, livre, como quem não reconhecia fronteiras.
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Foguinho não era apenas um rosto conhecido. Era um daqueles personagens que a cidade adota, ainda que, muitas vezes, sem cuidar. Um jovem que viveu grande parte da vida nas ruas, carregando nas costas o peso de ausências antigas, da família, do Estado, da proteção que nunca veio.
Andava de bicicleta como quem voava. “Emprestava bicicletas”, gostava, pegava, montava e ia sem se importar se era de alguém. Diziam alguns, talvez sem entender que, para ele, pedalar era mais do que deslocamento, era fuga, era liberdade, era o sopro de vida que ainda resistia dentro de um corpo marcado pela negligência.
Quando eu conduzia algum evento ou cerimonial, quantas vezes ele surgia, com aquele sorriso largo, quase infantil, perguntando: — Hoje vai ter show?
E naquela pergunta simples havia mais do que curiosidade. Havia uma vontade de pertencimento. Uma tentativa de fazer parte de algo maior, de uma festa, de uma cidade que, no fundo, também era dele. Adorava cantar e dançar.
Foguinho, um negro forte, esguio, queimado de sol, andava descalço. Os cabelos avermelhados lhe deram esse apelido, e ele era, de fato, fogo. Era a própria imagem da resistência, um corpo em movimento constante, uma energia bruta, quase selvagem, que, em sua aparência, insistia em existir apesar de tudo.
Mas, por trás da leveza do sorriso, havia dor. Uma dor profunda e silenciosa, que poucos conseguiram, ou quiseram, enxergar. Sofreu violências, enfrentou o abandono, o desprezo, carregou transtornos que jamais foram acolhidos com o cuidado necessário. Quando vieram as tentativas de controle, vieram também os efeitos colaterais, o peso no corpo, o cansaço, o apagar lento daquela chama inquieta que antes cruzava a cidade sobre duas rodas agora andava sem rumo. Mesmo em faíscas insistia em viver.
E assim, aos poucos, Foguinho foi sendo silenciado em vida. Dormia no chão, vestia o que lhe davam, fazia de si mesmo resistência até nos gestos mais básicos da sobrevivência.
Hoje, sua partida não é apenas a morte de um homem. É também o retrato de uma sociedade que falhou. Que viu, que reconheceu, que até nomeou, mas não acolheu como deveria.
Cáceres perde mais do que um personagem. Perde um pedaço de sua própria alma. Assim como já chorou outras figuras que marcaram suas ruas, agora se despede de mais um filho, daqueles que não tiveram endereço fixo, mas tinham lugar na memória coletiva.
Foguinho era, à sua maneira, poesia viva. Uma poesia bruta, desorganizada, mas profundamente humana. Uma chama que resistiu enquanto pôde, mesmo sem vento favorável.
Que agora encontre o acolhimento que lhe foi negado em terra.
Que descanse em paz, livre, leve, talvez, enfim, pedalando sem dor, sem peso, sem abandono.
E que a cidade, ao lembrar de Foguinho, não apenas sinta saudade… mas também aprenda, pois ele passa a ser símbolo de resistência, de invisibilidade social e também da urgência de um olhar mais humano para aqueles que vivem à margem. Sua trajetória, marcada por ausências e silêncios, convida à reflexão sobre o papel de cada cidadão e das instituições na construção de uma cidade mais justa, onde ninguém seja apenas visto, mas verdadeiramente acolhido.
Esdras Crepaldi é jornalista e poeta
DRT 940 MT
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