Cáceres, 17 de setembro de 2026 - 06:02

O retrato do eleitorado mato-grossense

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Mato Grosso tem quase 630 mil eleitores ausentes nas urnas: o que os números revelam sobre o comportamento eleitoral no estado. Levantamento baseado em dados do TSE mostra que um em cada quatro mato-grossenses aptos a votar não compareceu no 1º turno de 2024. Análise aponta municípios críticos, perfil dos ausentes e desafios de acessibilidade.

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Mato Grosso chega ao ciclo eleitoral de 2026 com um eleitorado numeroso e majoritariamente já preparado tecnologicamente para votar. Mas os números escondem desafios importantes na hora de garantir a participação de todos. São 2.639.075 eleitores aptos atualmente no estado, sendo que 93,8% já possuem cadastro biométrico, um índice considerado alto; destes 25.667 eleitores possui algum tipo de deficiência e 495 eleitores utilizam nome social no cadastro. Isso significa que a estrutura eleitoral do estado está bem consolidada, o desafio agora é entender quem vota, quem não vota, e por quê.

A abstenção que preocupa é que um em cada quatro mato-grossenses não votou. No 1º turno de 2024, Mato Grosso registrou 629.484 eleitores ausentes e taxa de abstenção de 24,3% — ou seja, praticamente um a cada quatro eleitores aptos não compareceu às urnas. Esse número por si só já chama atenção, mas o dado mais revelador está na comparação entre dois grupos de eleitores. No segmento de voto facultativo a abstenção foi de 39,4% e no voto obrigatório a abstenção foi de 22,6%.

Ao cruzar volume de ausentes com taxa de abstenção, o levantamento aponta cidades que merecem atenção redobrada em campanhas de mobilização eleitoral. O maior volume absoluto de ausentes é o município de Cuiabá com 102.186; seguido pela cidade de Rondonópolis com 46.135; Várzea Grande com 43.069; Sinop com 37.036; Tangará da Serra com 21.007; Sorriso com 19.030; Lucas do Rio Verde com 17.397 e Cáceres com 16.318. O município de Lucas do Rio Verde lidera a maior taxa proporcional de abstenção entre as cidades mais populosas, enquanto Sinop e Cuiabá preocupam pelo volume absoluto de eleitores que ficaram fora do processo.

Um dado curioso é que na capital, que teve segundo turno em 2024, a abstenção aumentou 2,77 pontos percentuais em relação ao primeiro turno. Isso mostra que, mesmo em disputas mais concorridas, parte do eleitorado tende a se afastar do processo à medida que a eleição avança, um alerta importante para estratégias de mobilização em pleitos com segundo turno.

O eleitorado de Mato Grosso é majoritariamente feminino, sendo que as mulheres representam 51,4% do total de eleitores, enquanto os homens somam 48,6%. Apesar de serem minoria, os homens são os que mais deixam de votar — a abstenção masculina chega a 26,2%, contra 22,5% entre as mulheres. Já em relação à idade, quase metade dos eleitores do estado tem entre 25 e 49 anos, uma faixa que concentra a força do voto mato-grossense.

Os números revelam, no entanto, duas realidades preocupantes nos extremos da pirâmide etária. Entre os mais idosos, a abstenção dispara: 73,8% dos eleitores de 85 a 89 anos não votam, número que sobe para 84,3% na faixa de 90 a 94 anos, 92,6% entre 95 e 99 anos e alcança impressionantes 95% entre os centenários. Do outro lado, os jovens de 21 a 24 anos também apresentam alta abstenção, de 34,7%. Esses dados apontam para duas urgências bem distintas que o poder público precisa enfrentar: garantir acessibilidade aos idosos — com transporte adequado e locais de votação de fácil acesso e criar estratégias para engajar os jovens adultos no processo democrático, fortalecendo sua participação política desde o início da vida eleitoral.

A escolaridade do eleitorado de Mato Grosso mostra um cenário diverso: o maior grupo é formado por quem tem o ensino médio completo (27,1%), seguido por pessoas com o fundamental incompleto (19,9%) e o médio incompleto (18,4%). Já os eleitores com superior completo somam 13,8%, enquanto os analfabetos representam 3,2% do total.

Esses números, porém, ganham outro significado quando cruzados com a abstenção: quanto menor o nível de escolaridade, maior a tendência a não votar. Os analfabetos lideram esse índice, com 46,9% de abstenção, quase o dobro da média estadual; seguidos pelos eleitores com médio incompleto (29,3%). Já entre quem tem ensino superior completo, a abstenção cai para apenas 17,1%, a menor taxa registrada. Esse padrão reforça como o acesso à educação está diretamente ligado à participação política, e sinaliza a necessidade de políticas públicas que aproximem esses grupos mais vulneráveis do processo eleitoral.

Quando o assunto é cor ou raça, o dado que mais chama atenção é a falta de informação: 62,5% dos eleitores não têm esse campo preenchido no cadastro eleitoral, revelando uma lacuna importante nos registros do estado. Entre os que informaram, a maioria se declara parda (22,5%), seguida por brancos (10,2%), pretos (3,8%), indígenas (0,8%) e amarelos (0,2%).

Esses números mostram não apenas a diversidade étnica de Mato Grosso, mas também um desafio a ser enfrentado: melhorar a qualidade do cadastro eleitoral é fundamental para que políticas públicas de inclusão racial possam ser planejadas com base em dados mais precisos e representativos da população real do estado. Em suma, Mato Grosso apresenta um mercado eleitoral amplo, biometricamente consolidado e territorialmente heterogêneo.

Os dados mostram que a democracia mato-grossense tem uma base sólida — com alta cobertura biométrica e eleitorado numeroso —, mas enfrenta desafios concretos: jovens desengajados, idosos com barreiras de acesso, eleitores com deficiência mal assistidos e municípios do interior com abstenção alarmante. Para 2026, o recado é claro: conhecer o território é o primeiro passo para fortalecer a participação democrática em Mato Grosso.

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — Base de perfil do eleitorado e comparecimento/abstenção, 1º turno de 2024 (142 municípios) e base cadastral atualizada em 03/08/2026.

Autora: Adriane do Nascimento é Advogada, Consultora Econômica. Sócia-Diretora da Sociedade de Advocacia Simões Santos, Nascimento & Associados (Cuiabá e Cáceres). Doutoranda em Direito Constitucional. Mestra em Economia, Políticas Públicas e Desenvolvimento, é registrada no CORECON-MT sob o nº 0001/ME. Especialista em Direito Tributário, Societário e Direito do Trabalho. Foi consultora da Comissão Especial de Direito Tributário do Conselho Federal da OAB (2022–2024) e é autora de artigos e obras acadêmicas voltadas à tributação, desenvolvimento econômico e políticas públicas. Recebeu o 1º lugar no XXIX Prêmio Brasil de Economia (2023) e o 3º lugar no XXX Prêmio Brasil de Economia (2024), promovidos pelo COFECON.

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