Por Adriane do Nascimento
Em 2024, 16.318 eleitores do município não compareceram às urnas, equivalente a 25,96% dos 62.858 cidadãos aptos a votar. Esse contingente expressivo ultrapassa uma simples estatística de abstenção. Ele suscita reflexões importantes sobre participação política, representatividade e confiança nas instituições, além de revelar um desafio central para o futuro democrático de Cáceres: compreender por que tantos cidadãos deixaram de participar e como reinseri-los no centro das decisões do município.
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Em uma eleição, os primeiros números observados costumam ser os votos do vencedor, a diferença para os adversários e a composição da Câmara Municipal. Os dados de Cáceres, entretanto, revelam outro resultado igualmente relevante: o tamanho da população que, embora estivesse apta a votar, não participou da escolha dos representantes municipais.
Nas eleições de 2024, Cáceres possuía 62.858 eleitores aptos. Desse total, 16.318 não compareceram às urnas, o equivalente a 25,96% do eleitorado. Compareceram cerca de 46.540 eleitores. Prefeito, vice-prefeito e vereadores foram escolhidos, portanto, a partir dos votos efetivamente depositados por uma parcela menor do eleitorado total — universo do qual ainda se excluem, para a definição dos eleitos, os votos brancos e nulos. Ainda assim, o número suscita uma pergunta de interesse público: por que mais de 16 mil cidadãos não participaram da escolha dos rumos políticos do município?
A ABSTENÇÃO NÃO É APENAS UM NÚMERO
Interpretar toda ausência como desinteresse ou descrença seria uma conclusão precipitada. O não comparecimento pode decorrer de dificuldades de deslocamento, mudança de endereço, problemas de saúde, jornada de trabalho, desatualização cadastral ou outros impedimentos pessoais. Somente pesquisa específica permitiria identificar o peso de cada causa.
Há, contudo, uma dimensão política que merece investigação: a qualidade do vínculo entre cidadão, instituições e resultados públicos, pode aumentar a sensação de distanciamento em relação ao processo decisório?
Não se pode atribuir uma causa única aos 16.318 eleitores ausentes nas eleições de 2024. Pode-se afirmar, porém, que esse contingente representa uma das questões mais expressivas reveladas pelas urnas de 2024 e deve ser compreendido sem julgamentos definidos.
1-UMA CIDADE ELEITORALMENTE DESIGUAL
Cáceres não se comporta como um território eleitoral homogêneo. Os dados por zona, local e seção permitem identificar áreas com maior comparecimento, outras com abstenção elevada e territórios nos quais a votação se distribui de maneira mais fragmentada entre as candidaturas.
O município possui aproximadamente 210 seções eleitorais, inseridas em realidades sociais, econômicas e territoriais distintas. A taxa municipal de 25,96%, por isso, é apenas uma média: ela não significa que todos os bairros e comunidades tenham apresentado o mesmo comportamento. Identificar onde a abstenção se concentra permite reconhecer os territórios mais afastados do processo político e orientar políticas de informação, acesso e presença institucional.
A geografia eleitoral, assim, não deve servir apenas à estratégia de campanha. Ela também constitui instrumento de diagnóstico social e pode indicar onde o poder público precisa ampliar sua capacidade de ouvir, atender e prestar contas.
2-O ELEITOR NÃO DEVE SER PROCURADO SOMENTE NA CAMPANHA
Uma das distorções recorrentes da política municipal ocorre quando bairros e comunidades recebem intensa atenção no período eleitoral, mas deixam de experimentar a mesma presença depois da votação. O cidadão não pode ser reduzido à condição de voto potencial: é usuário dos serviços públicos, contribuinte e titular do direito de participar das decisões coletivas.
Reaproximar quem se afastou das urnas exige mais do que publicidade, slogans ou visitas ocasionais. Exige resultados verificáveis. Isso pressupõe metas para saúde, educação, infraestrutura, assistência social e desenvolvimento econômico; divulgação clara do que foi executado; transparência sobre os recursos públicos; e canais permanentes de escuta social.
3-O QUE OS 16 MIL AUSENTES PODERIAM REPRESENTAR?
Os 16.318 eleitores que não compareceram formam um contingente capaz de alterar substancialmente qualquer cenário eleitoral municipal. Isso não significa que votariam de maneira uniforme, hipótese evidentemente improvável. Significa que uma participação maior poderia modificar a distribuição dos votos e, em disputas equilibradas, influenciar o resultado.
Nas eleições proporcionais, o efeito pode ser ainda mais sensível. Pequenas variações de votos podem alterar o desempenho das legendas, a posição dos candidatos e a composição da Câmara Municipal. A abstenção, portanto, não escolhe diretamente uma candidatura, mas reduz o universo de votos válidos que define a representação política.
4-A PRINCIPAL LIÇÃO DAS URNAS
Para os representantes eleitos, o desafio consiste em governar também para os ausentes. A legitimidade jurídica decorre das urnas; a legitimidade política cotidiana, por sua vez, precisa ser renovada por eficiência administrativa, transparência, presença institucional e serviços públicos capazes de produzir resultados.
Para partidos e futuros candidatos, conhecer o eleitorado exige mais do que contar votos. É necessário compreender territórios, perfis sociais, níveis de participação e demandas locais. Uma estratégia politicamente responsável não deveria perguntar apenas “onde estão os votos?”, mas também “onde estão os cidadãos que deixaram de perceber valor em participar?”.
Para a sociedade, permanece uma reflexão essencial: a insatisfação com a política é legítima, mas a ausência não interrompe seus efeitos. As decisões continuam sendo tomadas, os recursos públicos continuam sendo administrados e os mandatos continuam sendo exercidos.
Em 2024, cerca de 46,5 mil eleitores compareceram às urnas em Cáceres; outros 16,3 mil ficaram fora da escolha. Compreender esse silêncio eleitoral é indispensável para que o município alcance as próximas eleições com mais participação, consciência e capacidade de exigir resultados.
A democracia não se esgota no voto. Mas, quando uma parcela tão expressiva do eleitorado deixa de votar, a cidade precisa perguntar, com seriedade e sem julgamentos: o que afasta o cidadão da política — e o que deve ser feito para trazê-lo novamente ao centro das decisões?
5-ELEITORES QUE PODEM REDEFINIR 2026
Os 16.318 eleitores que não compareceram às urnas em Cáceres em 2024 constituem uma força eleitoral potencialmente decisiva para 2026. Embora não formem um grupo homogêneo nem seja possível presumir suas preferências políticas, esse contingente corresponde a aproximadamente 25,96% do eleitorado municipal e possui dimensão suficiente para alterar o desempenho das candidaturas a deputado estadual e federal. Mobilizar parte desses cidadãos poderá modificar não apenas a distribuição local dos votos, mas também o peso político de Cáceres no cenário regional.
O desafio das candidaturas será transformar presença eleitoral em compromisso territorial permanente. Em uma disputa marcada pela fragmentação dos votos e pela participação de candidatos sem vínculos efetivos com o município, ganhará relevância quem demonstrar capacidade concreta de defender as prioridades de Cáceres, articular recursos e prestar contas do mandato. Em 2026, a questão central não será apenas quem receberá o voto cacerense, mas quem conseguirá convertê-lo em representação política, investimentos públicos e resultados para a população.
Autora: Adriane A. Barbosa do Nascimento é Advogada, Consultora Econômica e Doutoranda em Direito Constitucional pelo IDP. Mestra em Economia, Políticas Públicas e Desenvolvimento, é economista registrada no CORECON-MT sob o nº 00001/ME e especialista em Direito Tributário, Societário e do Trabalho. Atua nas áreas de Direito Tributário, Empresarial e Econômico. É coautora da obra coletiva Reforma Tributária e Jurisdição Constitucional: estudos em homenagem à Professora Tarsila Ribeiro M. Fernandes, na qual assina o artigo “Tributação, regressividade e políticas de equidade: evidências para a economia do bem-estar do Brasil”. É também coautora do artigo científico “O orçamento como instrumento de justiça distributiva: evidências empíricas e fundamentos constitucionais das emendas PIX no Brasil”, publicado nos Cadernos de Finanças Públicas, da Secretaria do Tesouro Nacional, em 2026. Vencedora do XXIX Prêmio Brasil de Economia, em 2023, conquistou ainda o terceiro lugar na edição de 2024.
Fonte dos dados: Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Resultados das Eleições Municipais de 2024 — Cáceres/MT.
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Eleitorado por local de votação – 2024. Brasília, DF: TSE, 2024. Disponível em: https://dadosabertos.tse.jus.br/dataset/eleitorado-2024/resource/56348b87-e07c-4569-9c60-9cf6ccb10206. Acesso em: 19 jul. 2026.
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. SIG Eleição: resultados consolidados das eleições. Brasília, DF: TSE, [2024]. Disponível em: https://sig.tse.jus.br/ords/dwapr/seai/r/sig-eleicao-resultados/resultado-consolidado. Acesso em: 20 jul. 2026.
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