Cáceres, 10 de maio de 2026 - 02:46

Crédito Rural, Inadimplência e Recuperação Judicial no Agronegócio: os Sinais de Pressão Financeira no Campo Brasileiro

Artigo-Crédito-Rural

 O agronegócio brasileiro continua sendo uma das forças mais importantes da economia nacional. O país produz alimentos em grande escala, exporta soja, milho, carne e outros produtos para diversos mercados e sustenta boa parte da balança comercial. Mas, por trás dessa força, os números recentes mostram um cenário de alerta: entre 2021 e 2025, o setor passou de um ciclo de crédito farto para uma fase de maior endividamento, aumento da inadimplência e crescimento expressivo dos pedidos de recuperação judicial.

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 O crédito rural, principal combustível financeiro da produção agropecuária, cresceu fortemente até meados de 2023. O auge ocorreu em julho daquele ano, quando o volume liberado chegou a cerca de R$ 39 bilhões. Esse avanço foi favorecido pelos bons preços das commodities, pela rentabilidade das lavouras e pela liquidez no campo.

 A partir do segundo semestre de 2023, porém, o quadro mudou. A queda nos preços da soja, do milho e do boi gordo reduziu margens. Ao mesmo tempo, os custos de produção seguiram elevados, os juros encareceram o crédito e eventos climáticos — como secas no Centro-Oeste, perdas na safra 2023/24 e enchentes no Sul — pressionaram ainda mais o caixa dos produtores.NO resultado foi uma combinação difícil: menos capacidade de pagamento, bancos mais cautelosos e produtores buscando renegociação.

 Os dados mostram que, de janeiro de 2021 a outubro de 2025, o crédito rural ficou concentrado em poucos produtos. Soja, bovinocultura e milho responderam por aproximadamente 72% do total financiado. Regionalmente, o Sul concentrou cerca de 30,9% do crédito rural, seguido pelo Norte, com 27,1%.

 A maior parte dos recursos veio de financiamentos sem vínculo a programa específico, que somaram aproximadamente R$ 591 bilhões. Em seguida apareceram o Pronamp, com cerca de R$ 219 bilhões, o Pronaf, com R$ 146 bilhões, e o Funcafé, com R$ 6,2 bilhões.

 A inadimplência ainda é baixa no setor primário quando comparada a outros ramos da economia, mas a tendência preocupa. Entre janeiro de 2021 e agosto de 2025, houve crescimento gradual, com salto relevante entre outubro e novembro de 2024, quando o índice passou de 0,76% para cerca de 1%.

 Quando se observa a população rural de forma mais ampla, o índice é maior. No segundo trimestre de 2025, a inadimplência rural chegou a 8,1%, avanço de 1,1 ponto percentual em relação ao mesmo período de 2024. A região Norte apresentou a maior média de inadimplência rural, com 13,41%, seguida pelo Centro-Oeste, com 9,82%. Entre os estados, o Amapá liderou, com 19,5%.

 O problema também varia conforme o perfil do produtor. Arrendatários e grupos familiares apresentaram inadimplência de 10,5%, acima dos grandes produtores, com 9,2%, dos médios, com 7,8%, e dos pequenos, com 7,6%. A explicação econômica é direta: quem arrenda terra carrega um custo fixo adicional, o que reduz margem e aumenta a exposição ao risco. Esse ambiente já atingiu os bancos. A inadimplência no agro cresceu em instituições públicas federais. Na Caixa, chegou a 7,02% no segundo trimestre de 2025. No Banco do Brasil, principal financiador do setor, alcançou 3,49%, afetando o lucro da instituição.

 Outro dado chama atenção: os pedidos de recuperação judicial no agro cresceram de forma acelerada. No primeiro trimestre de 2021, foram 49 pedidos. No segundo trimestre de 2025, chegaram a 565, o maior número da série analisada. Goiás, Mato Grosso e Rio Grande do Sul lideraram no segundo trimestre de 2025, com 94, 73 e 66 pedidos, respectivamente.

 Esse aumento não significa, necessariamente, falência generalizada do campo. A recuperação judicial é um instrumento legal para reorganizar dívidas e tentar manter a atividade produtiva. Mas o salto nos pedidos revela que muitos produtores e empresas rurais chegaram a um limite financeiro. As falências requeridas também cresceram, especialmente entre 2023 e 2025. O ano de 2024 concentrou cerca de 18 pedidos, e 2025 já acumulava 12 solicitações até abril, indicando continuidade da pressão financeira.

 O diagnóstico econômico é claro: o agro brasileiro não vive uma crise de produção, mas enfrenta uma crise de margem, liquidez e risco. Produzir continua sendo estratégico e competitivo, mas financiar a produção ficou mais caro e mais difícil. Quando o preço recebido cai, o custo permanece alto e o clima reduz produtividade, o endividamento aparece com força.

 Para 2026, o cenário dependerá de quatro fatores principais: queda dos juros, recuperação dos preços das commodities, melhora climática e avanço das renegociações de dívida. Também será decisivo ampliar mecanismos de seguro rural, gestão de risco, garantias mais eficientes e instrumentos de mercado de capitais, como CPR, CRA e Fiagros. O campo brasileiro segue forte, mas a mensagem dos números é prudente: crescimento sem gestão financeira, crédito sem análise de risco e produção sem proteção climática podem transformar uma safra promissora em um problema jurídico e econômico.

Autores:

 Adriane A. Barbosa do Nascimento é advogada, Doutoranda em Direito Constitucional pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), Instituição pela qual também é Mestra em Economia, Políticas Públicas e Desenvolvimento. É especialista em Direito Tributário, Direito Societário e Direito do Trabalho, além de Economista registrada no CORECON-MT (n.º 00001/ME). Atua como Sócia-Administradora da Sociedade de Advocacia Simões Santos, Nascimento & Associados, em Cáceres/MT. Prêmio Brasil de Economia – 3º lugar na edição de 2024, na categoria Artigo Temático; e 1º lugar na edição de 2023, na categoria Artigo Técnico-Científico.

 Cibeli Simões Santos, Advogada, Sócia e Diretora Jurídica – Escritório Simões Santos, Nascimento & Associados – Sociedade de Advocacia. Especialista em Direito de Família; Mestra em Linguística pela Universidade do Estado de Mato Grosso; Doutora em Direito pela Universidade de Marília- SP; Autora do livro “Função social constitucional da propriedade privada: o complexo equilíbrio entre meio ambiente e agronegócio na ordem econômica brasileira”. Presidente reeleita da OAB Cáceres, triênios 2022/2024, 2025/2026.

 Victor Luiz M. de Almeida, advogado associado no escritório Simões Santos, Nascimento e Associados, Pós-graduado em Direito e Compliance Trabalhista pelo Instituto de Estudos Previdenciários – IEPREV, Pós-graduando em Direito do Agronegócio pela ESA/MT com a UFMT, Juiz Relator do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/MT.

REFERÊNCIAS

BCB. Banco Central do Brasil. Microdados de Crédito Rural. Brasília, DF, 2025. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/micrrural. Acesso em: 01 dez. 2025.

CEPEA. Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada. Indicador da Soja ESALQ/BM&FBovespa. Piracicaba: CEPEA/ESALQ, 2024. Disponível em: https://www.cepea.org.br/br/indicador/soja.aspx?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 02 dez. 2025.

CEPEA. Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada. Indicador do Milho ESALQ/BM&FBovespa. Piracicaba: CEPEA/ESALQ, 2024. Disponível em: https://www.cepea.esalq.usp.br/br/indicador/milho.aspx. Acesso em: 02 dez. 2025.

CEPEA. Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada. Indicador do Boi Gordo. Piracicaba: CEPEA/ESALQ, 2024. Disponível em: https://www.cepea.esalq.usp.br/br/indicador/boi-gordo.aspx. Acesso em: 02 dez. 2025.

CONAB. Companhia Nacional de Abastecimento. 5º Levantamento da Safra de Grãos 2023/24. Brasília, DF: Conab, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/conab/pt-br/atuacao/informacoes-agropecuarias/safras/safra-de-graos/boletim-da-safra-de-graos/5o-levantamento-safra-2023-24/5o-levantamento-safra-2023-24. Acesso em: 02 dez. 2025.

REVISTA CULTIVAR. Safra 2023/24 registra queda na produção de grãos devido ao clima adverso, diz Conab. Revista Cultivar, Pelotas, 12 set. 2024. Disponível em: https://revistacultivar.com.br/noticias/safra-2023-24-registra-queda-na-producao-de-graos-devido-ao-clima-adverso-diz-conab. Acesso em: 02 dez. 2025.

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