A moda do bebê reborn; hobby ou problema de saúde? Como diferenciar?
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O limite entre hobby e problema de saúde está na frequência, intensidade, distorção da realidade e impacto na vida e rotina do indivíduo, diz a psicóloga Rita Calegari, do Hospital Nove de Julho.

Reprodução
O impacto na rotina, porém, não é a realidade da maioria das entusiastas, que se definem como colecionadoras. Para elas, os bebês são fruto de um trabalho manual complexo, como explica Andrea Janaína Mariano, 51, mãe de quatro filhos (reais) e avó.
Andrea coleciona bebês reborn há mais de uma década e organiza encontros de admiradores em São Paulo. Hoje, também é artesã – ou ‘cegonha‘, como são chamadas as artistas que fazem os bebês – e vende os bonecos.
‘As pessoas acham que vamos aos encontros brincar de boneca, mas isso não acontece. Somos artistas, colecionadoras e pessoas que têm interesse em conhecer essa arte, que se reúnem para compartilhar informações‘, conta sobre as reuniões no Parque do Ibirapuera.
Além disso, muitos dos vídeos virais que mostram cuidados com os bebês como se fossem reais são apenas encenações, os chamados ‘role plays‘, feitos para apresentar a arte ou gerar engajamento. ‘É apenas um teatrinho; depois elas guardam as bonecas. Ninguém vive essa realidade‘, diz Andrea.
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Ainda assim, perguntada se conhece alguém que cuida em excesso dos bebês ou trata os bonecos como reais, Andrea afirma que sim, embora sejam ‘raros casos‘.
Quando há algo errado?
Rita é enfática sobre o assunto: ‘Mulheres que apenas usam, colecionam ou brincam com as bonecas como um momento de relaxamento não têm problema nenhum‘.
Como explica o psiquiatra Alaor Carlos de Oliveira Neto, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, um hobby é saudável quando enriquece a vida, proporcionando alegria e aprendizado sem gerar consequências negativas em outras áreas.
Cruza-se a fronteira entre o hobby e um possível desequilíbrio emocional quando não se distingue o cuidado fantasioso da realidade ou a interação com a boneca afeta as responsabilidades diárias. Algumas atitudes que merecem atenção especial, segundo Neto, são:
- Trocar os relacionamentos com outros humanos pelo apego à boneca, buscando no objeto carinho e afeto;
- Deixar de cumprir responsabilidades do dia a dia, como trabalhar e estudar, para ficar com o brinquedo;
- Gastar muito dinheiro com bonecas e acessórios, o que pode causar problemas financeiros;
- Se infantilizar ou tratar a boneca como se fosse um bebê de verdade de forma consistente, o tempo todo, perdendo a
- noção de que é uma brincadeira ou coleção;
- Usar o brincar para evitar lidar com problemas emocionais, traumas, situações difíceis ou a realidade da vida;
- Usar a brincadeira para fugir de sentimentos como solidão, ansiedade ou tristeza.
Além desses sinais, Santos também destaca que sentimentos extremos são preocupantes, como reações exageradas às críticas. ‘A pessoa pode entrar numa depressão achando que está passando por um preconceito em relação ao seu filho, que, neste caso, é o boneco. Isso é um sinal de alerta‘, diz.
Outros exemplos de que a situação ‘passou do ponto‘ envolvem a preocupação por deixar os bonecos em casa ‘sozinhos‘ durante o expediente de trabalho ou não vivenciar momentos com as pessoas reais para se fazer mais presente para os brinquedos.
Por que a conexão com o boneco?
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Os brinquedos também podem servir como ferramentas terapêuticas para lidar com o luto ou o Alzheimer, por exemplo.
‘A maior queixa que ouvimos de mães de natimortos nos hospitais é que elas não tiveram a chance de segurar os seus filhos. O luto sem corpo é um dos piores a ser elaborado‘, comenta Rita. Por isso, segundo a psicóloga, o cuidado com os bonecos pode ser um aliado.